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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lopo


Para hoje trago-vos um vintage com muita pinta! Lopo é um nome de origem latina (Lupus) que significa lobo. Com a febre da última temporada de Game of Thrones a chegar não consigo pensar em melhor altura para dar-mos um pouco mais de atenção a Lopo

Lopo, um nome que me transporta imediatamente à época medieval e quando dou por mim estou rodeada por outros nomes masculinos como Álvaro, Estêvão, Gaspar, Sancho... que período maravilhoso, cheio de nomes repletos de história. 

Sabiam que este pequeno lobo está mais presente do que aquilo que pensamos? Para quem gosta de astronomia e astrologia a constelação de Lupus é a que se encontra a sul da constelação de Libra e a lesta da de Centauro. Segundo a lenda mais célebre o lobo representaria o animal caçado pelo centauro para ser oferecido aos deuses no altar. 

A própria figura do lobo pode ter imensos significados:
  • No Xamanismo o lobo é um animal sagrado e de poder; 
  • Na mitologia romana os fundadores de Roma - Rômulo e Remo - são amamentados por uma loba (simbolizando a maternidade); 
  • Na mitologia grega era uma das formas que Zeus assumia; 
  • Para os nórdicos o lobo simboliza a morte cósmica por ser devorador de astros; 
  • Na idade média o lobo era utilizado para revistar os bruxos de Sabbath; 
  • No cristianismo o lobo era visto como o diabo por se alimentar de rebanhos; 
  • O lobo aparece em alguns contos infantis como é o caso de Os Três Porquinhos e a Capuchinho Vermelho
Lopo ainda faz presença no Brasil, mais especificamente na Serra do Lopo, um conjunto de montanhas situado entre  as cidades de Extrema (MG) e Joanópolis (SP). O pico do Lopo, o ponto mais alto da serra, é um ponto turístico bastante procurado.

Em Portugal, os registos mais recentes que encontrei deste nome foram em 2016, ano em que nasceram 3 meninos. Entre 1920 e 1980 foi sendo pouco registado, tendo sensivelmente 2 a 3 registos por ano. No site Nós Portugueses encontrei compostos bonitos que quero partilhar com vocês, Bartolomeu Lopo, Lopo Gil e Manuel Lopo

No estado de São Paulo não encontrei registados de Lopo nos últimos anos. Tampouco no IBGE encontrei dados sobre o nome, ao que parece não é registado o suficiente para sequer serem apresentados gráficos. 

Decididamente, Lopo não é um nome bem-amado, no Brasil parece ser quase inexistente enquanto em Portugal é um nome com pouca visibilidade. Amantes de GoT, principalmente da casa Stark, não acham que Lopo seria um excelente par para uma Ária ou mesmo uma Sansa

Gosto de Lopo e lamento que seja um nome tão pouco desejado pelos futuros papás. O que pensam deste nome?

Ana Madaíl Carvalho


Fontes consultadas:

Behind the Name, IRN, SPIE, Nós Portugueses, Dicionários de Nomes Próprios, ARPEN/SP, IBGE, Wikipédia, Dicionário dos Símbolos.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Petrvs/Petrus - Atendendo a Pedidos



Quando recebemos o pedido para falar sobre Petrvs/Petrus não pensei duas vezes e aceitei escrever sobre ele. Coisas misteriosas e sombrias me atraem e este nome tem um ar assim, enigmático. Não sei se é por me lembrar a cor preta, ou se é a grafia e a sonoridade tão peculiar o que me atrai profundamente. Faz-me lembrar um outro nome que no início achava estranho e que agora adoro, Petra.

Não acho que Petrus (prefiro esta grafia) seja fácil de agradar, é um nome que exige hábito e como é tão diferente a maioria das pessoas talvez possa estranhar à primeira. Mesmo lembrando o super comum Pedro no que diz respeito à sonoridade (e não só), Petrus tem uma exclusividade que só alguns conseguirão verdadeiramente apreciar.

Petrus/Petrvs é versão em latim do grego Petros que significa rocha. É, portanto, a forma latina de Pedro. Não encontrei referências a Petrvs nas nossas fontes, porém Petrvs é somente o modo de escrever Petrus em latim. E porquê isso? A vogal u em grego tem um som semelhante ao u em francês (som intermediário entre i e u), já em latim, a letra u ora tem a função de vogal (u), ora de consoante, conforme a posição na palavra. O som consonantal do u latino evoluiu para o b ou v nas línguas românicas. Ou seja, Petrvs é só uma maneira de se escrever Petrus usada na Idade Média, época em que era também comum se escrever v no lugar de u como no latim da antiguidade. Eu simpatizo muito com grafias arcaicas e Petrvs tem o seu charme para mim.

Relativamente à popularidade de Petrus nos nossos países, posso afirmar que é um nome raríssimo. Em São Paulo, no ano passado, contou com 11 registos apenas e em Portugal, em 2016, não obteve nenhum registo, apesar de ser um nome aceite. No site do IBGE, onde se pode consultar o censo demográfico do ano de 2010, pude descobrir que existiam nessa altura 838 pessoas com esse antropónimo e 27 pessoas com a grafia Pethrus. O nome Petrus começou a ser usado na década de 1960 onde nunca ultrapassou os 30 registos por ano, até que foi subindo sempre até obter 357 registos nos anos 2000. Petrus é mais comum em Pernambuco, seguido de São Paulo e Minas Gerais.

A nível mundial, Petrus foi um nome bastante usado na antiguidade até à época medieval e atualmente ainda se vê muito na Holanda e na África do Sul. Mas Petrus nunca foi nem será tão usado como outras variantes famosíssimas como é o caso de Peter, Pedro e Pierre.

Algumas Personalidades:
  • Padre Petrus - padre católico do século 5;
  • Petrus Alphonsi - escritor espanhol do século 12;
  • Petrus Aureolus- teólogo francês do século 13;
  • Petrus Christus - pintor holandês do século 15;
  • Petrus de Cruce - clérigo, compositor e autor do século 13;
  • Petrus Cunaeus - filósofo holandês do século 16;
  • Petrus Ramus - lógico, humanista e reformador educacional do século 15.

Como podemos perceber pelos séculos em que viveram as personalidades Petrus mais famosas, na época medieval era realmente um nome muitíssimo popular. E eu que sou apaixonada por essa época e pelos seus nomes fiquei ainda mais encantada com Petrus

Mas também existem hoje em dia algumas personalidades com este nome como por exemplo: 
  • Petrus Beukers - navegador olímpico holandês;
  • Petrus Blok - historiador holandês;
  • Petrus Bosman - bailarino e coreógrafo da África do Sul;
  • Petrus Boumal - jogador de futebol dos Camarões;
  • Petrus "Piet" de Jong - primeiro ministro holandês de 1967 a 1971;
  • Petrus Keizer - jogador de futebol holandês;
E muitos mais!

E vocês o que acham de Petrus? Usável?

Cláudia Barata

Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, IBGE, IRN, SPIE, Wikipédia.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Sância


Sância leva-me quase de imediato para a época medieval. Para mim as melhores palavras para descrever este nome são misticismo e elegância e não sei até que ponto prefiro Sância a Sansa e a Sancha

A origem do nome Sância é a mesma que Sancha. Estes nomes têm raízes no latim sanctus e significam santo/a, sagrado/a

Em Portugal ambas as versões podem ser registadas, mas os registos ano após ano são poucos ou nenhum. No ano passado, Sancha foi registado 1 vez e Sância não foi opção para nenhuma bebé nascida em 2016. Na verdade, julgo que Sância nunca foi muito utilizado em Portugal, entre 1920 e 1980 apenas foram registadas 58 meninas com este antropónimo. O ano com maior número de registos foi em 1932, com somente 5 registos. No site Nós Portugueses, encontrei exclusivamente um registo de Sância em primeiro lugar (Sância da Purificação, data de 1895) e um registo de Sância em segundo lugar numa composição (Teresa Sância, data de 1816). 

Tanto nos dados do estado de São Paulo como no IBGE, não encontrei registos de Sância

Eu tinha noção que este nome não era amado pelos nossos povos, mas pensei que talvez com a febre de Game of Thrones as pessoas pudessem olhar para Sância com mais carinho. A personagem Sansa é das mais queridas pelos amantes da saga e julguei que isso pudesse contribuir para o aumento das Sância e Sancha dos nossos países.

O que pensam sobre Sância? Acham que tem potencial para se começar a ouvir em recém-nascidas? 

Fontes consultadas:
Behind the Name, IRN, SPIE, Nós Portugueses, ARPEN/SP, IBGE, BabyNamesPedia,Think Baby Names, Nameberry, O BLOG DOS NOMES.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Tristão - Atendendo a Pedidos



Ouvi pela primeira vez o nome Tristão no filme Lendas da Paixão, em que o enigmático e selvagem Tristan é interpretado pelo charmoso Brad Pitt quando ele ainda era um jovem ator. Tristan é a versão inglesa de Tristão, claro está. Ora, eu quando penso em Tristão imagino um homem assim, selvagem mas com um quê de romantismo.

Tristão tem origem no nome celta Drustan que significa tumulto e que, por sua vez, sofreu uma alteração pela influência do latim tristis que significa triste, o que deu origem ao atual Tristan e Tristão. O significado de Tristão é então tristeza. Confesso que acho que o significado não abona muito pelo nome e por isso muita gente não usaria, mas como eu não ligo muito a significados isso não seria problema. Contudo, no caso de Tristão o próprio nome em si lembra a palavra triste, então é dificil não pensar nisso ao ver o nome.

Aliado a esse significado e associação, Tristão fica com um ar melodramático e romântico, o que aliado à sua terminação -ão torna o nome forte e imponente. Eu tenho uma queda por nomes medievais e com a terminação em ão, por isso Tristão é um dos "meninos" dos meus olhos.

Quem não conhece ou já ouviu falar de Tristão e Isolda? Tristão era um dos cavaleiros da Távola Redonda, da lenda celta O Rei Artur, que inspirou tantas outras histórias de amor em teatros, músicas, óperas e cinema. A própria lenda tem um final triste e o nome Tristão é realmente perfeito para esta personagem tão trágica. Penso que de tantos nomes da literatura este é um dos mais belos, tem um misticismo que o envolve e uma beleza carismática que não deixa ninguém indiferente.

A versão inglesa Tristan é a mais conhecida e Tristan é um nome relativamente popular nos Estados Unidos e no Canadá. Em 1996 entrou para o top 100 e continua a ser muito usado. Recentemente foi o nome escolhido por Chris Hemsworth para um dos seus gémeos. O nome do irmão do Tristan é Sasha e eu acho um par mesmo adorável.

Outras variantes de Tristão são Tristian, Triston, Tristin e Tristen. Para mim qualquer uma é bonita. Adoro!

Em Portugal, no ano passado, nenhum bebé foi registado com o nome Tristão, mas ao consultar a página SPIE descobri que ao longo dos anos, entre 1923 e 1970 foram registados alguns Tristão, mas sempre entre os 2 e 4 registos anuais. Não fiquei muito surpreendida pois sei que apesar de não se ver muito é um nome reconhecido pela maior parte das pessoas e perfeitamente usável.

No Brasil é a mesma coisa, existem cerca de 190 pessoas chamadas Tristão de acordo com o Censo Demografico de 2010, tendo a maior parte nascido nos anos 50. Também é  um nome mais visto no sul do Brasil. A versão Tristan ainda é mais rara, só existem 20 pessoas. 

Penso que a raridade do nome Tristão nos dois países preende-se ao facto de Tristão lembrar mesmo a palavra triste. Nos países anglófonos Tristan não tem nada a ver com a palavra sad (triste) e por isso muita gente nem sequer liga ao significado ou até nem sabem. É então apenas um nome, mas nos países lusófonos já não é assim. É realmente difícil ficar indiferente à semelhança com o sentimento. Tenho pena, pois adoro o nome e admiro quem tem a coragem de usá-lo.

Acho Tristão também uma óptima opção para compostos, acho que dá para fazer compostos muito charmosos.

Vocês conseguem ver a beleza no nome para além do significado literal? Acham que deveria ser mais usado?

Fontes consultadas:
Nameberry, Behind the Name, SPIE, IBGE, IRN.


terça-feira, 28 de março de 2017

Douglas



Forte e distinto, Douglas é um antigo nome de origem escocesa que já teve épocas de gloriosa popularidade no Brasil e nos Estados Unidos(entre outros países). Surpreendentemente, não é admitido em Portugal(consta como não aceito na lista do IRN), fato que impediu o seu desenvolvimento entre os portugueses, sendo seu uso praticamente inexistente em terras lusas. Douglas é um grande exemplo do contraste de popularidades entre nomes no eixo Brasil x Portugal. 

Inicialmente o uso de Douglas se deu como sobrenome e remonta à épocas medievais na Escócia. É a forma inglesa do sobrenome Dubhghalas que significa rio escuro, do gaélico Dubh (escuro) e Glais (rio, água). Aparentemente surgiu como sobrenome de origem territorial de nobres e importantes famílias escocesas. Segundo a tradição, os antepassados da família Douglas habitavam em locais próximos à rios de água turva. O sobrenome Douglas foi suportado por uma das famílias mais poderosas do então reino da Escócia. Passou a ser usado como nome próprio desde o século 16. Curiosamente, também foi usado como nome feminino entre os séculos 17 e 18 na Inglaterra. 

Desfrutou de grande popularidade nos Estados Unidos entre os anos 40 aos anos 80 (principalmente entre as décadas de 40 a 60, quando fez parte do top 30), mas a partir dos anos 90 foi decaindo e hoje sua posição é a de número #617 no ranking americano, ou seja, não é mais uma escolha da moda, podendo ser considerado ultrapassado. No Canadá fez sucesso entre os anos 20 aos anos 60, mas não faz mais parte de seus rankings atuais (a última vez que apareceu foi em 1990 na posição #91). Na Inglaterra ocupou a posição #305 em 2015. Em países anglófonos o apelido/diminutivo Doug ficou muito popular.

Douglas é um nome muito conhecido no Brasil, não é difícil encontrar um brasileiro com esse nome fato que se confirma com os números fornecidos pelo IBGE: existem 266.507 brasileiros chamados Douglas, com certeza uma frequência bastante alta. Entre a década de 30 até a década de 70 seu número máximo de registros foi 16.486, mas nos anos 80 saltaram para 66.416. Douglas ainda estava destinado a conquistar mais e mais brasileiros atingindo todo o seu esplendor de popularidade nos anos 90 quando seus registros explodiram e passaram para 122.242! Mas a preferência por esse nome escocês não se manteve posteriormente e nos anos 2000 houve uma brusca queda e seus registros passaram para 54.105 (ainda é um número muito expressivo, mas não tão alto como em épocas anteriores). Resumindo: é possível encontrar Douglas de várias idades entre os brasileiros, mas é muito mais provável que eles tenham de 37 a 18 anos e, também de acordo com o IBGE, residam na região sul e nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2016 conseguiu 226 registros no estado de São Paulo; em 2015 foram 300 (ainda é lembrado mas não é mais uma escolha do momento). Não tivemos acesso os compostos de 2016 mas em 2015 essas conjugações marcaram presença: Douglas Henrique (37 registros), Douglas Miguel (12 registros), Douglas Gabriel ( 8 registros), Kauan Douglas (7 registros) e Douglas Eduardo (6 registros).

Em Portugal a trajetória de Douglas foi oposta à do Brasil: através do SPIE temos a informação de que de 1920 a 1980 nunca foi registrado no país, o que transformou Douglas em um nome incomum entre os portugueses. A raridade continua na atualidade: em 2016 foi registrado apenas 1 vez, em 2015 não obteve registros e em 2014 também teve somente 1 registro (no composto Douglas Manoel). Possivelmente a estranha proibição do uso de Douglas pelo IRN de Portugal tenha limitado e impedido seu desenvolvimento. Para quem não sabe, em Portugal existe uma lista de nomes aprovados para uso, por isso alguns nomes têm o uso restrito, como é o caso de Douglas que só pode ser registrado por portugueses com dupla nacionalidade ou estrangeiros. ***Atualização: a partir de novembro de 2017 Douglas passou a ser autorizado em Portugal***

As referências são inúmeras, separei algumas:

  • Douglas Adams (1952-2001) - autor, roteirista e humorista britânico;
  • Douglas Alexander - político escocês;
  • Douglas Booth - ator e modelo inglês;
  • Douglas Costa - futebolista brasileiro;
  • Douglas Coupland - escritor canadense;
  • Douglas Fairbanks (1883-1939) - ator americano famoso por atuar em filmes como O Ladrão de Bagdá, Robin Hood e A Marca do Zorro;
  • Douglas Malloch (1877-1938) - poeta e escritor americano;
  • Douglas MacArthur (1880-1964) - um dos maiores comandantes militares da história dos Estados Unidos;
  • Douglas Silva - ator brasileiro;
  • Douglas Tavolaro - jornalista brasileiro.
Como sobrenome as referências são mais numerosas ainda e fica quase impossível listá-las! Está presente em vários setores, tendo muitos representantes entre a nobreza escocesa. Alguns portadores mundialmente conhecidos são os atores americanos Michael Douglas e seu pai Kirk Douglas (vale lembrar que o nome de nascimento de Kirk Douglas era Issur Danielovitch, herdado de seus pais imigrantes judeus provenientes da Bielorrússia. Kirk mudou legalmente seu nome e sobrenome quando antes de ingressar na Marinha). O também ator Michael Keaton se chama na realidade Michael John Douglas.

Apesar de mais associado aos anos 80/90 e não ser mais considerado moderno, acho que Douglas ainda é uma escolha a se considerar para os meninos dos dias de hoje. Creio que se adequa bem ao uso por adultos e crianças e o lado internacional (é facilmente reconhecível em vários países), considero um bônus. Gosto muito do seu significado (rio escuro) me remete ao misticismo, acho intrigante! 

O que acham de Douglas? Tenho curiosidade em saber a opinião dos portugueses sobre esse nome!

Fontes Consultadas:

ARPEN/SP, Behind the Name, Dicionário de Nomes (Nelson Oliver), IBGE, IRN, O Livro dos Nomes (Regina Obata), SPIE, Wikipédia.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Aldara


Um nome medieval que encheu os palácios, as aldeias e as casas das famílias portuguesas num passado muito distante! Apesar de o achar elegante e misterioso num sentido muito apelativo, a verdade é que Aldara perdeu-se nos caminhos sinuosos do tempo.

As fontes que consultámos indicam-nos que este é um nome cuja prevalência se centra sobretudo no território galego, onde, também em termos históricos, Portugal se foi construindo. A estrita ligação entre a Galiza e Portugal pode justificar o uso comum de determinados nomes no passado, entre eles, Aldara. De acordo com fontes científicas que se debruçam sobre a genealogia das primeiras famílias aristocráticas do Norte de Portugal (Pizarro, 1997) é possível encontrar inúmeras mulheres com este nome ligadas à nossa história. É um nome que andava de mãos dadas a outros como Fernão, Lopo, Mor e Sancha, só para mencionar alguns dos mais “tipicamente medievais”.

O que é certo é que à medida que os anos foram avançando, Aldara foi ficando para trás e sabe-se hoje que entre 1920 e 1980 (em Portugal) nasceram apenas 9 meninas com este nome, todas antes de 1940. Os dados da década de 90 são-nos desconhecidos, mas sabe-se que em 2014 foi registada uma pequena Aldara Lucia e em 2015 foram registadas duas meninas com este primeiro nome também. Em 2016 não houve nenhum registo. Por sua vez, no Brasil, o nome também é praticamente inexistente: estima-se que existam apenas 58 pessoas com este nome, não existindo nenhum registo do nome em 2015 (São Paulo).

Já na Galiza, os dados do seu Instituto de Estatística, dizem-nos que existem atualmente cerca de 700 pessoas com este nome, e outras 30 com a variante antiga: Ilduara. Mais, em 2013, Aldara era o 50º nome feminino mais utilizado na Galiza, o que é um dado muito interessante, que nos diz que a Norte de Portugal ainda não se desistiu de um nome tão bonito!

O nome parece ter origem germânica, aglomerando os elementos hild (batalha) e wars (sábia, prudente), querendo, portanto, Aldara dizer aquela que é prudente na batalha, aquela que é sábia na batalha. Terá chegado a território galego através dos visigodos.

Acredito que Aldara é um nome bonito, ponderado e uma escolha original para os nossos dias. A terminação não é incomum para os nossos países e a sonoridade tem a graça de soar a algo misterioso e exótico. Pessoalmente acho bonito, que acham?


Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, IBGE, IRN, Naidea Nunes (1996) Antroponímia Primitiva da Madeira (séculos XV e XVI), Instutuo Nacional de Estatística (Galiza), José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (1997) Linhagens Medievais Portuguesas e SPIE.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Mécia


Mécia é um dos muitíssimos nomes aceites em Portugal, mas praticamente só o ouvimos quando se faz referência a uma rainha “raptada”, a lendas de Portugal, ou ao Império Português. Quantas/os de nós ouvimos no seu círculo de amigos o nome Mécia? E numa familiar? Ou familiar de amigos? A minha resposta é Nunca!

Se calhar por o associarmos a tempos idos, justifica a sua nula ou quase nula utilização, não sendo sequer colocado em cima da mesa para uma possível utilização num novo ser humano. Embora não seja daquelas pessoas que o requisito principal seja o tamanho para ser elegível ou mesmo bonito, admito que neste caso é o seu tamanho e a sua sonoridade que o tornam atraente.

Mécia é um nome medieval português, que poderá ter tido outras formas como Meçia ou Méncia. É um nome de origem galo-romano, proveniente do nome Mincius. Para encontrar o significado foi uma verdadeira luta, pois estas são as únicas referências no Behind the Name: sobre Mincius não encontrei nada, apenas encontrei referências a Mencius. À primeira pensei que fosse uma variação, mas trata-se de uma latinização do nome do filósofo chinês Meng Ke (372 – 289 a.c.).

Continuando a pesquisa... por Méncia ou Meçia não encontrei nada; Encontrei Mência, nome latino cujo significado é merecedoraEncontrei quem defendesse que Mécia é uma variável de Mércia, cujo significado vem do francês e inglês - graça, misericórdia (mercy) e dom divino. Mas não encontrei mais nada que corroborasse isto.

Segundo o IBGE, a sua frequência no Brasil é de 782 pessoas. Quanto aos registos de Mécia em Portugal, pelo quadro abaixo vemos o quanto é raro ou nulo encontrarmos meninas registadas com este nome, sendo que até parece que em 1954 houve a loucura entre as madrinhas que escolheram o nome das meninas (infelizmente - ou felizmente em alguns casos - eram mais as madrinhas que escolhiam os nomes, do que as próprias mães):

Saliento que no SPIE não consegui fazer a pesquisa por Mécia, mas por Mecia. 


Meninas chamadas Mécia nascidas em:
2011 – 0;
2012 – 1;
2013 - 1;
2014 – 0;
2015 - 0; São Paulo, Brasil - 0;
2016 - 0; São Paulo, Brasil - 0.

Margarida Madeira.

Utilizariam Mécia?


Fontes consultadas:
Behind the Name, SPIE, IBGE, IRN, ARPEN/SP, significadodonome.com, nomeschiques.com.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Leonor


Leonor, o bem-amado dos portugueses! Um nome de muito encanto que parece ser apenas apreciado dentro de fronteiras. Já aqui abordámos as suas muitas variações, começando pelo medieval português Lianor até ao internacional Eleanor, passando por outras variações mais raras entre nós como Eleonor, Leonora ou Eleonora – faltando apenas, julgo eu, abordarmos Nora.

Acho estes nomes de contraste cultural sempre muito interessantes! Isto é, nomes que são adorados em Portugal e ignorados no Brasil e vice-versa. O que faz com que um nome seja tão apreciado num lado e indiferente no outro? Tradição ancestral, figuras mediáticas ou mesmo elementos particulares da pronúncia? Eu diria que muitas vezes é uma simbiose perfeita entre estes três fatores.

Como vimos na publicação sobre Rainhas de Portugal, Leonor é um nome contemplado nestas listas, estando muitas vezes associado à aristocracia e casas reais portuguesas ao longo dos séculos, conforme nos comprovam documentos que muitas vezes aqui citamos quando falamos de medievalismos (Nunes, 1996; Pizarro, 1997).

Na Idade Média, era perfeitamente natural encontrar uma Leonor de todas as idades, muitas vezes irmã de uma Joana, Teresa ou Sancha. Mas comparado a estes três nomes o percurso de Leonor será, talvez mais parecido ao de Joana, já que Teresa nunca deixou de ser utilizado e Sancha caiu em desuso! Joana e Leonor foram amplamente utilizados ao longos dos séculos e durante o século XX, mantendo-se sempre acima dos 100 registos anuais. No entanto, enquanto Joana subiu na sua popularidade já nos anos 70, Leonor desceu a sua popularidade e esperou pelos anos 90 para subir esplendorosamente nos gostos dos portugueses.

Desde então, tem sido imparável! Em 2012 Leonor estava em 3º lugar com 2297 registos, lugar que manteve em 2013 (1838 registos) e em 2014 (1859 registos), sendo apenas ultrapassado por Maria e Matilde! No ano seguinte, em 2015, Leonor faz história e torna-se novamente o 2º nome mais utilizado em Portugal, logo atrás de Maria, com 1999 registos como primeiro nome. Em 2016 a saga continua e Leonor mantém-se firme no 2º lugar (1798 registos)! 

Continua a haver uma grande interrogação sobre o seu futuro, mas é certo que Leonor continuará a figurar nas listas de centenas e centenas de famílias todos os anos, se não sozinho, pelo menos em compostos. Maria Leonor foi o segundo composto mais utilizado no país em 2014, apenas ultrapassado por Maria Inês. Seguem-se Leonor Sofia, Leonor Maria, Leonor Filipa e Leonor Isabel. Os anos seguintes não devem fugir muito a esta regra. Mas há sempre compostos que nos surpreendem e alguns deles são Leonor Avelina ou Leonor Mélanie. Se estiver interessado/a, também disponibilizámos uma publicação sobre Compostos com Leonor.

No Brasil, por sua vez, o nome nunca foi demasiado utilizado. Por outras palavras, Leonor nunca cativou os brasileiros, mantendo-se sempre à sombra do sucesso português. Só na década de 50 é que o Brasil viu nascer no seu seio mais Leonores do que nos restantes anos. Ainda assim, não em número suficiente paras e tornar popular ou marcar uma geração específica. Para todos os efeitos, Leonor no Brasil é um nome sem precedentes, uma escolha nova e original. Em São Paulo (2015) foram apenas registadas 5 meninas com este nome, perdendo terreno para Eleonora uma versão mais bem-amada no Brasil e em Itália (consta do top 50 italiano).

O nome em si, como já explicámos em publicações anteriores, nasceu na França durante a Idade Média, onde um outro nome feminino era muito popular: Aenor, um nome de origem germânica, cujo significado se perdeu nos confins do tempo. O nome eventualmente evoluiu para Alienor e depois para Leonor, que chegou rapidamente a Portugal poucos anos após se tornar Reino. Em 1211 nasceu em Portugal a Infanta Leonor de Portugal (Rainha Leonor da Dinamarca), filha do Rei D. Afonso II e D.ª Dulce de Aragão, a primeira Leonor da casa real portuguesa. Seguiram-se mais 6 infantas nas gerações seguintes e Dona Leonor Telles, regente de Portugal após a morte do seu marido o Rei D. Fernando I.

Ao longo da história de Portugal surgiram várias figuras importantes com este nome, desde logo Leonor Tomásia de Lorena e Távora, cuja antipatia pelo Marquês de Pombal despoletou um processo judicial conhecido como o Processo dos Távora. Também a poeta Leonor de Almeida (1750-1839) e (muito) mais recentemente a apresentadora Leonor Poeiras e a atriz Leonor Seixas.

A nível internacional existe também a Princesa Leonor de Espanha, filha do Rei Filipe VI e da Rainha Letícia, bem como a Princesa Leonore da Suécia, filha da Princesa Madalena. Assim, facilmente o nome entra para a lista dos nomes aristocráticos, mas mais que isso, Leonor é um nome bem português! Já Camões cantava, embora na sua versão arcaica: “Descalça vai para a fonte, Lianor, pela verdura”.

Que acham de Leonor? Que razões levam o Brasil a não o apreciar?

Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, IBGE, IRN, José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (1997) Linhagens Medievais Portuguesas, Naidea Nunes (1996) Antroponímia Primitiva da Madeira (Séculos XV e XVI), O Blog dos Nomes, SPIE e Wikipedia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Amadis


O próprio nome já nos dá pistas para o seu significado, e sim, tem a ver com amor, mas Amadis tem uma história bem interessante e vamos explorá-la hoje aqui!

Com as mudanças nas tendências de nomeação de meninos, em que cada vez mais se querem nomes bonitos e meiguinhos, que sejam profundamente carinhosos e internacionais, há uma série de nomes que de repente se tornam potenciais candidatos às listas das famílias. Muitos destes nomes procuram-se pela característica de serem nomes românticos e muitas vezes as únicas opções intuitivas serão Romeu, Pedro, Tristão, Valentim/Valentino e, no máximo, ainda se chega a um Aramis. Hoje há mais um que se pode juntar a esta lista e é precisamente Amadis!

Amadis de Gaula era um herói literário medieval da Península Ibérica. Ao certo não se sabe quem terá sido o seu autor, havendo algumas fontes que apontam para um autor português e outras fontes que nos dizem que a única obra completa é de Montalvo (autor espanhol), sendo amplamente divulgada pela Europa e inspirando Miguel de Cervantes quando escreveu o seu romance icónico Don Quixote. Na verdade, muitas vezes, Amadis é considerado o precursor de Don Quixote!

A História debruça-se sobre Amadis, um bebé fruto do amor errante do Rei de Gaula e de uma Infanta da Bretanha (reinos inimigos), que fora abandonado num barco à sua sorte. Acontece que Amadis é recolhido por um cavaleiro que o cria à sua imagem. Quando chega à idade adulta, parte em procura das suas verdadeiras raízes envolvendo-se em aventuras sem par, repletas de magia e perigos mil (bem à moda medieval). No entretanto, conhece Oriana da Bretanha, pela qual se apaixona perdidamente e enfrenta os mesmos obstáculos que os seus pais.  É um romance bem à moda antiga, como podem prever. Podem ler a obra integral aqui.

Na sua origem, Amadis trata-se de uma forma arcaica e ibérica de Amadeus, que vem do latim e significa amar a Deus ou amor a Deus. Permitido em Portugal, Amadis foi registado como nome próprio apenas 6 vezes entre 1920 e 1980 e nenhum nos últimos quatro anos. No Brasil também não são encontrados registos antigos ou atuais.

Amadis parece ter desaparecido do panorama português e brasileiro, mas o seu caráter romântico e meigo tornam-no uma opção bonita, histórica e muito original para 2017 e adiante, nem que seja como segundo elemento de um composto – tenho a certeza de que embelezará qualquer nome. Concordam?


Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, Graça Videira Lopes (2007), IBGE, IRN, SPIE e Wikipedia.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Dâmaso


Qualquer pessoa que tenha lido Os Maias de Eça de Queirós não olha para este nome com indiferença! É um nome da nossa literatura, utilizado de forma satírica, como era bem o estilo de Eça, numa personagem que encarnaria os males da sociedade, que ser cria ser corrupta e influenciável. Ok, a associação não é a mais bonita se tivermos em conta a personagem em si, mas se olharmos para a obra genialmente concebida por aquele que é um dos maiores escritores portugueses de todo o sempre, Dâmaso torna-se, subitamente, um nome pomposo e com classe.

Hoje em dia não é utilizado, e mesmo durante o século XX utilizou-se muito pouco (não mais que 7 registos por ano), o que faz com que Dâmaso ainda preserve aquele ar aristocrático oitocentista maravilhoso. Na verdade, o nome caiu de tal forma em desuso que já não se encontra presente na lista de nomes autorizados em Portugal, embora eu acredite que seja aceite. Em sua vez, encontramos por lá Damas, um diminutivo deste nome, mas com tradição germânica, o que não deixa de ser curioso. Confesso que tenho dificuldade em imaginar um Damas português, mas pouca dificuldade em imaginar um Dâmaso, à moda antiga mesmo!

Apesar de ser um nome antigo, não o vejo como um nome empoeirado. Acredito que há alguma coisa em Dâmaso que o faz ser interessante e leviano para mim, talvez seja mesmo a obra literária, talvez seja porque o associo a Danúbio (como o rio e como a famosa valsa) ou até mesmo porque hoje em dia se continuam a encontrar vários Dâmasos em Portugal (em apelido/sobrenome).

Na sua origem, acredita-se que derive do grego damazo que significa algo como domesticar ou controlar. Novamente, aqui Dâmaso não soma pontos, mas se é religioso talvez gostará de saber que houve um papa (português) com este nome, que é considerado por vários historiadores como um dos papas mais prestigiados do século IV! E este pormenor também nos dá conta do quão antigo é o nome Dâmaso e da sua tradição de uso em Portugal! Curiosamente, uma das suas variantes é Damásio, apelido/sobrenome de um dos maiores neurocientistas mundiais do momento: António Damásio.

No Brasil, curiosamente, esta tradição não existe, tendo nós a informação de que entre 1930 e 2000 não nasceram mais de 170 pessoas com este nome e de que atualmente o cenário é exatamente o mesmo.

Dâmaso parece um nome de contrastes culturais entre Brasil e Portugal, mas em ambos os países não é considerado atual, nem é usado. A cada ano que passa o nome parece afundar nos confins do tempo mas talvez sem necessidade nenhuma. Que acham sobre o nome?


Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, Eça de Queirós (Os Maias), IBGE, IRN, SPIE, Wikipedia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Florentim


Se olharmos de forma geral para as tendências de nomeação de meninos e meninas, rapidamente percebemos que é largamente bem aceite que uma menina tenha nome de flor, existindo também um amplo leque de possibilidades de nomes começados pelo prefixo flor, como, por exemplo, Flora, Florença ou Florentina. Por sua vez, quando falamos de rapazes, a tendência parece oposta. Existem muito poucas famílias a utilizarem nomes de flor para menino e existem muito poucos nomes para rapaz com este mesmo prefixo que sejam aceites socialmente. É verdade, porque os nomes existem! Existem, por exemplo, Florentino, Floriano ou até Florival.

Florentim também existe! E é precisamente a este nome que damos destaque hoje. Um nome que na língua portuguesa marca a sua existência como adjetivo, sendo sinónimo de Florentino, alguém que é natural de Florença. Até certa medida, quase que o poderíamos considerar um nome geográfico, remetendo-nos para a bonita cidade italiana, no apogeu do renascimento! Uma visão maravilhosa e uma associação ainda melhor para se fazer a este nome.

Claro está que, por estar associado a Florença, Florentim apresenta a mesma origem no latim em Florentius que, por sua vez, deriva do termo florens que significa prosperar, florescer, florir! Tal como dissemos em Florentina, um significado que extrapola as flores e lança-se nos campos concetuais do crescimento, da expansão e do desenvolvimento!

No entanto, Florentim caiu em desuso. Outrora foi muito utilizado na Idade Média e no Renascimento em Portugal, como nos reportam Naidea Nunes (1996) e os documentos que se referem a António Florentim, grande pintor português do século XV. Na Base de Dados da SPIE não existem registos deste nome em Portugal entre 1920 e 1980.  O nome também não consta na lista do IRN atualmente e escusado será dizer que nos últimos anos não foi utilizado (se bem que existe o registo de um Florentino em 2014 e um Forentin em 2015). No Brasil, o IBGE também nos diz que o nome não foi registado entre 1930 e 2000, nem em São Paulo em 2015.

É sempre um ato de coragem resgatar um nome do passado, ainda mais quando este nome parece esquecido há décadas e ainda tem o grande encargo de ser um nome que combate estereótipos. A quem olhar para Florentim e gostar e ponderar usar, eu tiro o chapéu, sinceramente, e reconheço a ousadia! Até porque Florentim é uma escolha diferente mas enquadra-se no estilo moderno que cada vez mais aprecia esta terminação e nomes meigos! Já agora deixo a nota literária de que Florentino era o protagonista do romance ímpar de Gabriel Garcia Marquez, Amor em Tempos de Cólera, e Florentim poderia surgir aqui como um tributo à obra!

Que acham sobre Florentim?


Fontes consultadas:
ARPEN/SP, Behind the Name, Diário de Notícias, IBGE, IRN, Naidea Nunes (1996) Antroponímia Primitiva da Madeira (Séculos XV e XVI), O Blog dos Nomes (Florentina), SPIE, Wikipedia.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Robim & Rubim


Nomes que nos transportam para os cenários místicos das florestas, melhor dizendo, dos bosques. É quase impossível olharmos para estes nomes e não nos lembrarmos do herói medieval inglês, Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para dar aos pobres. Uma figura do imaginário medieval anglófono que depressa preencheu as histórias de milhares de famílias um pouco por toda a Europa e, séculos mais tarde, por todo o mundo, via a edição de livros e adaptações cinematográficas nele inspiradas!

É talvez por esta associação fantástica, que olho para Robim e Rubim (as versões portuguesas de Robin) como nomes de Outono, como se estivessem envolvidos por uma aura castanha, cor-de-terra, característica de tudo o que se encontra no meio natural nessa estação. Lembra-me o cheirinho a terra molhada depois da chuva, lembra-me folhas caídas no chão, correrias entre árvores, um cenário profundamente campestre e mágico. Cheio de entusiasmo! E, por tudo isso, olho para eles, sobretudo para Robim, como nomes muito bonitos (para diferenciar as versões portuguesas e influenciada pela estrangeira, leio Róbim)!

Na verdade, todas estas versões variam de um nome único, que já foi mais utilizado por brasileiros e portugueses do que é no atual momento: Roberto! Que, por sua vez, é um nome de origem germânica (Hrodebert), composto pela junção dos elementos hruot (glória) e berhto (brilhante). No composto, o nome significa aquele que a glória tornou famoso ou famoso e glorioso, conforme explicou também o Joel Moreira na sua publicação sobre Roberto.

Ainda sobre Rubim, sabe-se que é também a escrita arcaica de Rubi, como a pedra preciosa, o que pode ser chamativo para várias famílias! Também é o nome informal de uma planta (cordão-de-frade) com características medicinais - e assim se completa o vínculo de Rubim à natureza!

Curiosíssimo é o facto de que não existem registos de que Robim tenha sido utilizado no passado ou no presente em Portugal, mas em contraste, o SPIE indica-nos que entre 1920 e 1980 nasceram 18 meninos chamados Rubim e, mais recentemente, foram registados 9 em 2013, 2 em 2014 (um deles é Rubim Miguel) e 13 em 2015. O nome parece começar a despertar interesse, embora seja muito residual ainda!

No Brasil, ambos os nomes são praticamente inexistentes: entre 1930 e 2000, em todo o território brasileiros, nasceram 67 pessoas com o nome Robim e 115 com Rubim. Recentemente, também não têm sido utilizados, não sendo possível afirmar com certeza se os dois compostos masculinos (Enzo Rubim e Heitor Rubim) registados em São Paulo (2015) serão mesmo nomes próprios ou sobrenomes, uma vez que Rubim também é utilizado como apelido/sobrenome.

Posto isto, deixo à vossa consideração. Robim e Rubim são nomes atraentes para vós?

Um agradecimento especial à Patrícia Monteiro pela ajuda na construção desta publicação!


Fontes consultadas:
Ana Belo (1997) Mil e tal nomes próprios, ARPEN/SP, As Plantas Medicinais, Behind the Name, IBGE, IRN, O Blog dos Nomes, Origem dos Sobrenomes, Priberam (Rubim), SPIE e The Internet Surname Database.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Damião


Quando comecei a ler mais sobre nomes, há uns bons anos atrás, tinha especial predileção por nomes desconhecidos e com história. Damião foi uma dessas descobertas que me encantou à primeira-vista. Nunca tinha conhecido, nem nunca conheci um Damião.

O nome Damião é a forma portuguesa do conhecido Damian, tão usado em países anglo-saxónicos. Do grego Δαμιανος (Damianos) que por sua vez deriva de δαμαζω (damazo) que significa domar, Damião é também o nome de um conhecido santo cristão, que tinha por irmão Cosme.

Cosme e Damião eram irmãos gémeos, muito devotos e que exerciam medicina de graça aos mais desfavorecidos. A santidade foi-lhes atribuída por isto mesmo, por este trabalho verdadeiramente cristão de ajudar o próximo sem esperar nada em troca. Os santos Damião e Cosme foram martirizados na região da Síria e hoje são considerados os santos padroeiros das confrarias médicas.

Em Portugal no século XIX, para se obter o título de doutor em Coimbra pagava-se emolumentos para a Irmandade de S. CosmeJá no Brasil o culto aos gémeos mártires foi trazido em 1530 por Duarte Coelho Pereira e tornaram-se padroeiros de Igarassu, em Pernambuco. No nordeste brasileiro passaram a ser invocados para afastar o contágios de epidemias. Os negros bantos identificaram Cosme e Damião como os orixás Ibejis em um sincretismo religioso.

Damião (e suas variantes) é um nome bastante usado também em alguns países da América Latina, por exemplo no México em 2013 ocupava a 32ª posição e no Chile na 38ª. Em Portugal, consultando o SPIE, pude verificar que Damião foi um nome pouquíssimo usado desde o início do século XX, mas todos os anos houveram alguns registos, mas nunca mais de 30 por ano.

Eu acho que Damião tem um ar vintage e simples como Viriato ou Domingos por exemplo, mas não pode ser considerado isso pois o número de registos falam por si. Não é um nome desconhecido mas e um nome raro. Depois dos anos 80 quase que desapareceu e em 2015 obteve 8 registos. Ou seja será que está prestes a ser descoberto ou é tipo Sancho que  nunca passa desses mesmos registos? Provavelmente é o mais provável. E que lindo par Damião e Sancho dariam!

Falando agora do nome no Brasil, de acordo com o IBGE existem 79 321 pessoas com esse nome com uma maior taxa de incidência em Paraíba. No início do século XX era praticamente não usado mas houve um aumento na popularidade nas décadas seguintes atingindo um pico nos anos 70 mas logo depois voltou a ficar em praticamente desuso. Em 2015, no estado de São Paulo, obteve 3 registos.

Penso que Damião tenha talvez uma carga religiosa muito grande para alguns, mas visto que outros nomes do estilo como Mateus e Lucas, personagens muito conhecidas da Bíblia, são tão queridos e populares nos dois países lusófonos acho que deveria haver um lugar para Damião no coração das pessoas.

Damião é um nome com história, com um ar antigo que agrada a tantos hoje em dia e é conhecido internacionalmente, apesar de a terminação não ser das mais apetecidas para quem prefere nomes internacionais. Mas pondo isso de parte, Damião é um nome com carisma, raro e de certeza que seria impossível ficar indiferente a uma criança que carregue este nome tão peculiar. Seria uma lufada de ar fresco a este nome que esta tão escondido nos pensamentos das pessoas.

O que vocês pensam sobre este nome? Demasiado pesado ou conseguem ver numa criança nascida nesta época?


Fontes consultadas:
IRN, IBGE, SPIE, Behind The Name, ARPEN/SP, Wikipédia, Público.