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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Mor


Sou apaixonada pela História de Portugal, fascinada por Genealogia e simplesmente adoro nomes próprios e apelidos/sobrenomes! E na fusão destas minhas três áreas de interesse, deparei-me, por acaso, com um nome feminino muito curioso: Mor!

Ao início, tal como deve estar a ser a vossa reação, fiquei muito surpreendida. Afinal de contas nunca tinha ouvido falar em semelhante nome, não tinha a certeza sobre como se pronunciava e dou comigo a perceber que na Idade Média, em particular no reinado de D. Dinis, Mor (lê-se Mór) era tão comum quanto Constança, Guiomar, Sancha, Teresa e Urraca. Por comparação de número de registos encontrados num documento sobre Genealogia neste reinado, Mor era, ainda, mais utilizado do que Beatriz, Branca, Inês, Isabel ou Joana, também comuns na época. Já não bastava o nome em si ser o suficientemente incomum para me chamar a atenção, quando fiz a análise comparativa fiquei ainda mais entusiasmada!

Mas depois, algumas questões! Será que Mor foi só utilizado na aristocracia nortenha portuguesa durante a Idade Média, ou seria um nome comum noutras parte do país também? Lancei-me à procura e encontrei registos de Mor no Alentejo, na Madeira e em Lisboa, não só no século XII e XIII mas também nos séculos XV e XVI! Cheguei a encontrar também o composto Mór Lourença e registos de casamento de uma Mor Gonçalves (1552 com Cristóvão Gonçalves) e uma Mor Lourenço (em 1590, com Manuel de França Andrade).

Depois de ter percebido que terão existido mulheres chamadas Mor um pouco por toda a nação durante alguns séculos, passei para a minha segunda questão: que nome é este? De onde vem, qual é a sua origem?! Não foi nada fácil responder a esta questão mas neste momento sinto-me à vontade para explicar que Mor é uma síncope de Maior, o que significa que o nome próprio Maior, devido a fenómenos de redução fonética, acabou por perder duas vogais e passou a ser conhecido como Mor, tal como aconteceu com Fernando e Fernão, Mendo e Mem, Pedro e Pero, Rodrigo e Rui. E, segundo consegui apurar, estas formas proclíticas (reduzidas), foram por vários linguistas consideradas próprias do português arcaico e caíram em desuso com o avançar os anos precisamente por denotarem uma antiguidade que nem sempre é ou foi apreciada. E é esta explicação que responde à minha outra pergunta: porque é que Mor caiu de tal forma no esquecimento que hoje dificilmente o considerar-mos-íamos um nome próprio (feminino)?

Outras pesquisas em busca de uma origem para o nome, levaram-me a crer que Mor podia ser um nome hebraico, que corresponderia à palavra mirra, que nos tempos bíblicos também corresponderia a uma árvore de flores da qual se extraia um óleo com efeitos curativos.

Uma outra possibilidade que se levantou foi Mor derivar da palavra gaélica utilizada para designar grande ou maior, o que, de alguma forma, vai ao encontro às teorias dos linguistas portugueses. Sabemos que a Península Ibérica esteve ocupada por povos celtas durante alguns séculos antes da expansão do Império Romano, pelo que é viável que Mor, como tantos outros nomes próprios, tenha sido importado do gaélico para o português arcaico. É provável que o seu uso se tenha mantido durante alguns séculos e que se tenha popularizado entre os nossos antepassados muito distantes. No atual território da Escócia e da Irlanda, Mor era um nome próprio feminino comum, sendo que em galês também significa mar, oceano.

Como já tive oportunidade de explicar, o nome que outrora foi tão popular entre os portugueses, deixou de ser utilizado e no século XX não encontramos o registo de nenhuma Mor nesse período, nem nos anos que se seguiram. No entanto, embora a sua forma Maior tenha seguido mais ou menos o mesmo caminho, no ano de 1934, nasceram duas meninas assim chamadas em Portugal.

Não sei se Mor pode ser declarado extinto, mas o mais provável é que sim. Não consigo imaginá-lo a ser utilizado novamente nos nossos dias, porque acho que ninguém sentiria simpatia suficiente por ele para, sequer, equacionar dá-lo a uma filha. Eu confesso que talvez não fosse capaz de o equacionar também, embora o ache muito simpático e, para ser sincera, nem sei se gosto verdadeiramente dele. Apenas sei que ele é absolutamente fascinante para mim, por isso não pude deixar de pesquisar e escrever este texto! Espero honestamente ter contribuído para que ele não seja esquecido por completo e que alguém, algures no mundo, se lembre ou saiba que Mor existiu e foi muito acarinhado pelos portugueses no passado!

Nos dias de hoje, por incrível que pareça, consigo dar destaque a uma personalidade com este nome! Trata-se da cantora e compositora israelita Mor Kabasi que, também apaixonada pela história dos seus antepassados, se dedicou à música sefardita, tradicional entre os judeus exilados da Península Ibérica num passado muito distante, também. Comparada muitas vezes à nossa fadista Mariza, Mor Kabasi tem-se embrenhado na world music e na etnicidade das sonoridades antigas. Por tudo isto, o nome Mor remete-me para uma época cativante e mística, envolta em mistério e magia!

Que dizem sobre este nome? Estou curiosa com os vossos comentários!